segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Haiti é aqui



Desde as primeiras matérias envolvendo a tragédia das chuvas na serra fluminense, sabia ser questão de dias largar tudo em São Paulo - onde nasci e voltei a morar faz 12 anos - e partir para o Rio de Janeiro - minha terra do coração, onde fiz questão de ter meu filho.

Sentimento parecido já havia me atingido no ano passado, quando do terremoto no Haiti. Acontece que era outro País e, por exigir burocracia, custos e decisões alheias à minha vontade, não me foi possível ser voluntária como agora. Meu desejo de ir pessoalmente ajudar aquelas pessoas restringiu-se ao envio uma pequena verba via ONG Médicos sem Fronteiras, e do abraçar fervoroso da campanha de divulgação via twitter em prol de donativos ao País mais pobre das Américas, repetindo, quase como num coro uníssono, “O Haiti não é aqui!” Ledo engano.

Como joio e trigo das lavouras, o resgate e a ajuda aos sobreviventes da maior tragédia do Estado do Rio e do Brasil, tem de tudo um pouco. Exemplos de solidariedade viram manchetes nas Tevês, mídias impressa e sociais. Mas falta muita coisa: organização das instituições políticas, um bom plano de contingência e mesmo gente com autoridade para coordenar ou supervisionar as várias atividades que, aos olhos mais leigos, parecem sem eira nem beira.

Minha ansiedade em ver donativos chegarem aos necessitados logo se transformou em frustração. Não foram poucas as cenas que presenciei em apenas dois dias de trabalho como voluntária da Secretaria do Trabalho e Assistência Social e Cidadania de Itaipava - SECRAT, localizada no centro do município pertencente à prefeitura de Petrópolis, onde trabalhamos, meu filho e eu, desde o dia 21 de janeiro.

Antes de ir para o Rio, a partir do que vinha conversando com @bdugin, o estudante de jornalismo que se tornou celebridade no twitter pelo belo trabalho realizado em Nova Friburgo, imaginava ver carros saindo em comboio dos centros de apoio para levar pequenas caixas e sacos contendo roupas e material de limpeza e higiene pessoal aos necessitados. Mas o que vi foi exatamente o contrário. Uma Kombi estacionou no pátio do CIEP, ao lado da SECRAT, de onde todos os sacos contendo material de higiene pessoal estavam sendo retirados.

Sem entender nada, fiquei horrorizada com a forma com que o material foi tratado pelos homens do Exército responsáveis pela ação. Entre sete e dez militares – fizeram uma corrente para passar os sacos até que o último jogava-os sobre uma pilha. Com a força da queda, muitos dos sacos se rasgavam e sabonetes, desodorantes, papel higiênicos iam se perdendo no meio do monte que se formava no enorme galpão. Os recrutas? Nem aí com o resultado catastrófico daquela operação mal supervisionada. Avisei, apontei, gritei, e nada. Ainda parei um senhor vestindo uma camiseta “oficial” escrito Prefeitura, o que, em tese, poderia garantir alguma ascendência. Ele dirigiu-se até a metade do caminho, mas desistiu. Nem eu, nem ele, mas, então, quem? A quem cabe a autoridade numa situação desta? E o bom senso, onde foi parar?

À primeira vista, tudo leva a crer que há uma grande união, que as forças estaduais e municipais estão coesas para o bem comum. Como jornalista, é dever apoiar as iniciativas! Mas é no detalhe que o caos é gritante, pior, grotesco, revelando muito mais que inexperiência e ineficácia. Revela um descaso e um jogo de poder que também não podem ficar no vácuo.

Quem trafega pelas ruas de Itaipava vê guardas controlando o trânsito. Os caminhões da Prefeitura jogam água de tempos em tempos para limpar as ruas e evitar que o pó da terra que desceu com as chuvas, já seca pelo sol abrasador, suba e torne irrespirável o ar. Louvável, mas é o mínimo esperado. Agora, o que dizer da falta de uma planilha de controle de escalas de voluntários como no caso do meu filho e eu? De distribuição de tarefas por aptidão, por exemplo, já que houve um esforço de cadastramento, no qual nossa profissão foi consultada? E o que falar de todo um árduo processo de separação de roupas que, após o dia trabalhado, é totalmente desperdiçado? Isso mesmo! Durante o dia, apesar de aos montes, nenhum policial, guarda ou homem do Exército controla o fluxo das pessoas que sobem e descem as rampas para os andares onde estão os donativos “trabalhados” pelos voluntários.

Meninos e crianças em férias, mulheres sem trabalho ou apenas curiosos ficam zanzando pelos andares do CIEP, entrando nas salas para saber quem é a pessoa responsável, ainda não sei se para intimidar ou com qual finalidade. Ao final do dia, depois que saímos, estas pessoas literalmente abrem os sacos de roupas separadas por gênero, tipo etc. e então “escolhem” o que querem. Como verdadeiras “aves de rapina”, roubam o que separamos e espalham sobre o chão as peças que não lhes interessam. No dia seguinte, só nos resta recomeçar o que já tínhamos feito. Tudo porque além do que já escrevi, também não há chaves nas salas ou esquema de guarda da sala para onde são transferidos os sacos de roupas.

Por tudo isso, quando fui instada a assumir uma sala, neste segundo dia, fiz questão de entregar um relatório completo de quantos sacos fechamos de cada tipo de roupa etiquetada. Assim passei o turno. O que terá acontecido depois? Não tenho ideia, sinceramente. O máximo que posso me permitir é deitar no travesseiro, achando que fiz o meu melhor pelas pessoas que, um dia, podem vir a receber as minhas, as suas e as doações de tantas pessoas que, como eu, acreditam que o trabalho que fizemos tem um objetivo maior do que servir de plataforma política e esvaziar estoques de comidas por vencer e vencidas– apenas para melhorar o marketing de algumas marcas – de pessoas desonestas.

Infelizmente, não posso me responsabilizar por este trabalho porque sou uma parte muito pequena e sem poder de uma enorme cadeia. Fui proibida de seguir com meu carro para entregar pessoalmente minhas próprias doações aos necessitados, quiçá aquelas roupas, que procurei separar como se fosse dar a meu filho. Ser voluntária no Brasil só me deu uma certeza. O Haiti é, sim, aqui! (Foto de Kevin Carter, que ganhou o Pullitzer pela imagem e, por não ter aguentado o peso de tal "sucesso", aparentemente, matou-se após o feito, conforme a reportagem em inglês daqui.

7 comentários:

Isabel disse...

Amiga, quando fui deixar dois sacos de roupas no batalhão da polícia militar aqui atrás, saí pensando: será que isso será entregue sem ninguém "saquear" antes? Pensei alto e uma senhora que também saia depois de fazer suas doações me olhou e disse: "minha filha, a gente fez a nossa parte". Mas de que adianta a gente fazer e o outro desfazer? Não sei, amiga, não sei...

Guido Laubé disse...

Parabéns, irmã, pela matéria e pela iniciativa. Com orgulho, Lyane

Lisia disse...

Vany
Não saberia descrever o que estou sentindo. De um lado se abate sobre mim o peso do teu texto relatando um realidade que, de alguma forma, eu já adivinhava. Até tentava pensar comigo mesma que eu era descrente, maldosa até. Na verdade esta historia é a mesma que aconteceu com os donativos em Santa Catarina. Não sei quem disse isto mas concordo..."não aprendemos nada com as tragédias e, infelizmente, elas se repetem". Isto é muito triste.
Por outro lado ao ler teu texto me emocionei. Eu não me enganei contigo, és pessoa muito especial. Gente como tu faz a diferença na vida dos outros. Ao ler teu texto pensei: Esta é a Vany! Devem existir mais Vanys, podemos ter esperança ainda. Meu respeito e admiração. Bjo

Geany Menezes disse...

Então? Encarou a verdade? Olhou bem de perto? Cheirava mal, não?
Como sua amiga , fiquei com o peito cheio de orgulho com sua coragem, mas bem no fundo, pelo tanto que te conheço, eu sabia que a frustação seria dolorida.
Eu poderia ser "bacaninha" e dizer que vale seu exemplo para que todos se juntem e cobrem e gritem e esperneiem, mas...a realidade é muito maior e não é nada bacaninha.
ONGS servem para escoar dinheiro. Tragédias servem para aumentar popularidade dos politicos, vender jornais ,dar audiência e vender mais espaços publicitários para aquelas empresas que enviam produtos vencidos.
O resultado maior de sua viagem foi mostrar ao Daniel que devemos fazer a nossa parte sim, ajudar o proximo sim, mas ter sucesso em ser solidário não depende apenas da nossa vontade.
Pegue seu menino e volte pra casa sntes que a frustação e a sensação de impotência desenvolva nele o descaso.
Talvez uma ação menor, junto a escola ou uma
cominidade carente vizinha traga melhor resultado somente pelo fato de não estar na mídia dando ibope pra politico.
Espero notícias. Beijos

Simone Coutinho disse...

Nossa!Parabéns pela coragem e humildade.Texto lindo e retrata a realidade triste que vivemos aqui...

mosaicosocial, o blog da + Mosaico Negócios & Comunicação disse...

Queridos todos, Isabel, Lisia, Lyane e Geany,

Amei os comentários, todos. Eu realmente não sabia que seria isso - apenas que não seria fácil, mas não isso. Mas, Geany e Lyane me conhecem - acho que Isabel idem - eu não desistiria se não visse com meus próprios olhos. Sempre fui assim. E ainda que meu lado Poliana seja fortíssimo, valeu como experiência e, como disse a Geany, para mostrar ao Dani o que é ser solidário sem ser otário. #vqv, fazer de outra forma, continuar acreditando e (já de casa!) votar melhor, cobrar melhor, atuar de forma a que estas coisas não se perpetuem.

Hoje temos as mídias sociais. Que elas nos sirvam como amplificadores da coletividade que discorda deste status quo degradante, que nos mantém na desconcertante condição de "paisinho" de terceiro mundo, desorganizado e corrupto, não importa a legenda à sua frente. Nosso povo merece mais respeito.

bernardo disse...

Demais!! Parabéns pela força e pelo trabalho. Fiquei de voluntário em Friburgo e, não se assuste, por lá foi pior! O que conforta um pouco é a consciência de que fizemos o certo, o nosso melhor. Mesmo que seja um trabalho de formiguinha.

Força sempre. Beijos, Bernardo.
@bdugin